quarta-feira, 3 de setembro de 2025

O Museu dos Desamores

(ou o amor que não ousa dizer seu nome)

Lembro-me do inverno em que o amor foi proibido pela primeira vez,
extinguindo com ele
a primavera.

quem instalou as câmeras de vigilância que,
atentas, fuzilaram nas ruas 
todos os amantes? 
quem flechou, em pleno voo,
os beijos tenros das flores?

cães em patrulha dilaceram todos aqueles que ousam,
em nome do amor,
entrelaçar os dedos nos bancos das praças.
comem-se as línguas daqueles que arriscam dizer seu nome.
marca-se à fogo a vergonha dos lábios.

corações enjaulados sangram a ausência de suas metades
no Museu dos Desamores.

Por cima dos muros,
entre os fios de arame farpado,
gritei, rebelde:
“Eu te amo”.

e pode-se ouvir 
o que os olhos já não reconheciam mais:
Nasceu um colibri.