quarta-feira, 3 de setembro de 2025

O Museu dos Desamores

(ou o amor que não ousa dizer seu nome)

Lembro-me do inverno em que o amor foi proibido pela primeira vez,
extinguindo com ele
a primavera.

quem instalou as câmeras de vigilância que,
atentas, fuzilaram nas ruas 
todos os amantes? 
quem flechou, em pleno voo,
os beijos tenros das flores?

cães em patrulha dilaceram todos aqueles que ousam,
em nome do amor,
entrelaçar os dedos nos bancos das praças.
comem-se as línguas daqueles que arriscam dizer seu nome.
marca-se à fogo a vergonha dos lábios.

corações enjaulados sangram a ausência de suas metades
no Museu dos Desamores.

Por cima dos muros,
entre os fios de arame farpado,
gritei, rebelde:
“Eu te amo”.

e pode-se ouvir 
o que os olhos já não reconheciam mais:
Nasceu um colibri.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

o tempo de uma vida em uma noite.

 (ao que parte);


as iniciais talhadas no mogno estavam desgastadas pelo tempo. um pequeno mas bonito musgo, verde cintilante, crescia por entre as pequenas rachaduras do corpo. 


seus dedos desentrelaçaram dos meus, e eu me despedi do mundo. 


no bolso, a pequena caixa dos mistérios trocados, arrumados com carinho. uma coleção de palavras doces, uma fotografia dos seus olhos e três beijos, pra usar quando a saudade estrangular o peito.


Fomos cada estrela desse céu. 

matamos dragões,

construímos em barro o alicerce de nossa casa

e florimos com sangue nosso jardim.


e eu te amei até o osso! 


quando sua boca desencontrou da minha,

choveu. nos soterramos em argila e sonhos.


entre os escombros,

de malas prontas, nos passo um café.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

o caso é que, como Capricórnio,
criei vínculos com todas as estradas
em que passei.
cada pedra rolada dão firmamento.

há pedaços de mim 
por cada cidade que morei.
gostaria de ocupar todos os espaços ao mesmo tempo,
clepsidra distribuindo as horas.

re-
beijar cada boca,
dormir cada cama,
moer cada vida.