sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

tsuru;

filho de Cronos,

presenteio-lhe com as asas do tempo.

Quando a revoada anunciar a contagem dos mil voos,

desabrochará a flor dos desejos. 


mil pássaros costurando sonhos.


os pássaros,

como as paixões,

devem ser efêmeros. 


ao amor se devotam os ninhos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

O Museu dos Desamores

(ou o amor que não ousa dizer seu nome)

Lembro-me do inverno em que o amor foi proibido pela primeira vez,
extinguindo com ele
a primavera.

quem instalou as câmeras de vigilância que,
atentas, fuzilaram nas ruas 
todos os amantes? 
quem flechou, em pleno voo,
os beijos tenros das flores?

cães em patrulha dilaceram todos aqueles que ousam,
em nome do amor,
entrelaçar os dedos nos bancos das praças.
comem-se as línguas daqueles que arriscam dizer seu nome.
marca-se à fogo a vergonha dos lábios.

corações enjaulados sangram a ausência de suas metades
no Museu dos Desamores.

Por cima dos muros,
entre os fios de arame farpado,
gritei, rebelde:
“Eu te amo”.

e pode-se ouvir 
o que os olhos já não reconheciam mais:
Nasceu um colibri.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

o tempo de uma vida em uma noite.

 (ao que parte);


as iniciais talhadas no mogno estavam desgastadas pelo tempo. um pequeno mas bonito musgo, verde cintilante, crescia por entre as pequenas rachaduras do corpo. 


seus dedos desentrelaçaram dos meus, e eu me despedi do mundo. 


no bolso, a pequena caixa dos mistérios trocados, arrumados com carinho. uma coleção de palavras doces, uma fotografia dos seus olhos e três beijos, pra usar quando a saudade estrangular o peito.


Fomos cada estrela desse céu. 

matamos dragões,

construímos em barro o alicerce de nossa casa

e florimos com sangue nosso jardim.


e eu te amei até o osso! 


quando sua boca desencontrou da minha,

choveu. nos soterramos em argila e sonhos.


entre os escombros,

de malas prontas, nos passo um café.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

o caso é que, como Capricórnio,
criei vínculos com todas as estradas
em que passei.
cada pedra rolada dão firmamento.

há pedaços de mim 
por cada cidade que morei.
gostaria de ocupar todos os espaços ao mesmo tempo,
clepsidra distribuindo as horas.

re-
beijar cada boca,
dormir cada cama,
moer cada vida.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

hoje eu chorei na rua; e

imediatamente

o céu fez companhia e desaguou comigo.

talvez para me ajudar a enganar os que passavam,

talvez para lavar aquelas lágrimas

que já não fazem mais poesia. 


quantas ameaças ainda precisam ser vencidas?

hoje eu chovi na rua; e 

imediatamente

o céu fez companhia e chorou comigo.


eu voltei. agora mais fraco que nunca.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

De todas as flores no campo, colhi a mais adornada de espinhos. A dor pungente de cravejar o belo, aperto-a com força entre os dedos pra não perder seu perfume. 


Rego com sangue o solo da próxima Primavera.

Teus olhos são como sol do meio dia

Canto de sabiá tecendo melodia.


Te amo como o abrir das flores aos pássaros. Mel de pitanga no bico do araçá.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Eu gosto de você. Talvez mais do que seria sensato gostar. Mais do que é permitido. Além do profano, dos lençóis, e além do que escondo apertado na palma das mãos. Te amo como o amor que devoto aos astros: sem explicação, sem sentido, mas ainda assim amor. Amor pelo vesúvio sobre meu corpo, o cataclismo em meu ossos. Amor dos olhos da Lua e dos deltas de Vênus.

Te beberia dois oceanos pra lhe colher os Peixes. 

sexta-feira, 19 de junho de 2020

então
eu gosto de você.
gosto de um jeito novo, de um significado não experimentado. gosto do jeito que se gosta do sabor do café. gosto de como quem arde o lábio e assopra pra doer de novo.

gosto de doer a garganta.

gosto como quem gostaria da ressignificação do gosto. do entregar-te novo.





[gosto], como quem nunca teve o que comer.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

polinizado;

desde seu último beijo
tenho você atravessado em minha garganta
e fincado no meu peito.

todas as cores são suas,
todas as palavras são você.

sinto correr pelas minhas veias
o perfume de seus ramos
e brotar em meu peito
o lírio de seus olhos.

teu nome floresce em meus ouvidos.
minha boca é sua flora.